Uma Igreja em saída
A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, fruto do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização, procura reafirmar certos paradigmas tratados de modo exaustivo no Documento de Aparecida (que teve o então Cardeal Bergoglio como um dos redatores), mas que parece ainda pouco assumido em boa parte de nossa Igreja.
O primeiro paradigma tratado é exatamente o da "Igreja em saída". Já no parágrafo 20, o Papa realça a necessidade de a Igreja ser verdadeiramente missionária, diante dos novos desafios que os nossos tempos nos propõem. É sempre bom lembrar dos primeiros evangelizadores do "Novo Mundo", que, deixando tudo, se jogam na direção do desconhecido, em meio a dificuldades e limitações de seu tempo, como, por exemplo, São Francisco Xavier, São José de Anchieta, os nossos Santos Mártires Riograndenses e tantos outros. nem preciso ir tão longe no tempo para perceber esta realidade. Aqui mesmo, na Paróquia onde estou, trabalhou durante 29 anos (1951-1980) um padre austríaco, Pe. Simão Moser. Na época não havia ligação por asfalto com nenhum outro lugar. Durante todos esses anos, Pe. Simão visitava as comunidades montado à cavalo, depois, com um Jipe, muitas vezes ficando atolado no meio da areia ou do barro, por dias. Quando lemos sobre a vida deles, nós, padres de nossos tempos, deveríamos corar de vergonha por fazermos tão pouco diante de tantas facilidades que a nossa vida atual nos oferece.
Hoje, vivemos num tempo de grandes facilidades, o que é muito bom. Aqui, a imensa maioria de nossas comunidades eclesiais são acessíveis com asfalto, o celular nos coloca em contato com o mundo, temos fácil acesso a uma internet de razoável qualidade. O perigo que essas facilidades nos oferece é o de justamente nos acomodar, tornando-nos fechados dentro de uma redoma de vidro. Perdemos, com facilidade, a nossa capacidade de ascese e de uma vida com sobriedade.
Outro aspecto, que deve ser abordado nesse tema proposto, é o da vivência da fé, que encontramos em nosso povo católico e em muitas de nossas lideranças. No nosso contexto cultural e religioso atual, a vivência da fé se dá na forma de um "consumismo espiritual" (EG 89), totalmente desconectado da vida da comunidade e da unidade com as outras pessoas. Um cristianismo sem rosto não pode ser cristianismo. A grande novidade do cristianismo para o mundo pagão dos primeiros séculos foi justamente a sua dimensão comunitária da fé. A fé não era apenas o conjunto de ritos e devoções, mas se expressava na Liturgia e no amor fraterno. Isso nós não podemos permitir que seja tirado de nós.
Sair de nós mesmos, sair de nossas sacristias e ir ao encontro do outro, especialmente do outro que é expressão de Jesus Abandonado, nas suas cruzes, dores e sofrimentos. Ir ao encontro do outro, como Igreja que é Mãe, de braços e portas abertas, para acolher com amor.
Como podemos fazer isso no concreto de nossas comunidades eclesiais? O Papa nos dá algumas dicas preciosas:
a) Nossas Igrejas devem estar sempre de portas abertas, para acolher a todos. Precisaremos criar equipes de Pastoral da Acolhida, formadas por pessoas simpáticas, amáveis e com grande capacidade de escuta;
b) Toda a Igreja precisa se "converter" em missionária, saindo de nossa atitude muitas vezes apáticas (Aparecida fala em "estruturas caducas"...), numa espécie "de pastoral de manutenção", que, às vezes, além de não ser missionária, acaba até mesmo afastando aqueles que eram nossos. Falamos tanto a respeito dos católicos que mudaram de igreja ou até mesmo de religião, mas não fazemos um exame de consciência para examinar se as causas dessas defecções não estariam exatamente em nossas estruturas às vezes pesadas e pouco acolhedoras.
Esta é apenas a primeira "conversa" com a Exortação Evagelii Gaudium. Teremos muitas outras... Aguardem!
Nenhum comentário:
Postar um comentário