13 de dezembro de 2014

Conversando com a Evangelii Gaudium V

A superação de uma mentalidade mundana dentro da própria Igreja

O Papa reconhece que um dos grandes problemas da Igreja está numa mentalidade “mundana” de poder. De fato, talvez seja o maior problema existente e que, muitas vezes, nos coloca em contradição com o próprio Evangelho. Muitos ambientes eclesiais estão tão envenenados pelo ódio, pela ganância e pela luta de poder, que se tornam a antítese de tudo aquilo que Jesus ensinou aos seus discípulos, especialmente quando lava os pés deles, na Última Ceia.
Assim escreve o Papa em EG 98: “Dentro do povo de Deus e nas diferentes comunidades, quantas guerras! No bairro, no local de trabalho, quantas guerras por invejas e ciúmes, mesmo entre cristãos! O mundanismo espiritual leva alguns cristãos a estar em guerra com outros cristãos que se interpõem na sua busca pelo poder, prestígio, prazer ou segurança econômica.” Uma visão puramente institucional de Igreja, vista de um modo somente mundano, permite que aconteçam essas guerras fratricidas, que acabam se tornando um escândalo para os que vêem de fora como se portam os cristãos, especialmente os eclesiásticos.
Certa feita, um colega fez uma interessante reflexão sobre isso. Talvez a tentação e o pecado que é mais grave na vida da Igreja seja o do poder, mais grave até mesmo que as tentações e pecados na área da sexualidade, porque enquanto estes são bem definidos (não pode e ponto final), aqueles (os do poder) são muito menos perceptíveis e podem ser escondidos sob aparências até mesmo aceitáveis e boas. Porém, o veneno é até mesmo pior, pois nessas tentações, surgem pecados sérios, como a inveja, o ciúme, a arrogância, a maledicência, o ódio... Isso envenena totalmente a alma, arruína as relações entre as pessoas, destrói a Igreja de Cristo.
Por isso, nada como o último lugar! Jesus, em seu aniquilamento, ao se fazer homem e, na Cruz, assumir o último lugar, nos mostra o caminho que nós, discípulos missionários, temos que percorrer na fidelidade à nossa vocação. E a nossa vocação é esta: estarmos na Cruz com o Senhor, dando a nossa vida pelo Reino.
O Papa Francisco tocou numa das chagas mais dolorosas da Igreja. O próprio contexto de sua eleição (a renúncia de Bento XVI, no meio de uma triste tempestade na Igreja) mostra o quanto precisamos crescer nesse sentido. E a briga de poder não se dá somente na Cúria Romana: acontece de igual forma também em nossas Dioceses, Paróquias, Movimentos, até mesmo em nossas famílias.

A vida cristã será profética no mundo de hoje na medida em que, em nossos ambientes, formos testemunhas do serviço gratuito e desinteressado aos outros, serviço este feito com generosidade e amor.

10 de dezembro de 2014

Conversando com a Evangelii Gaudium IV

Uma Igreja continuamente tentada
A EG nos oferece uma oportunidade de fazermos um verdadeiro exame de consciência eclesial. Geralmente nós temos por hábito fazermos ao fim de cada dia, antes de dormir, um exame pessoal de consciência, vendo os nossos pecados e erros cometidos durante aquele dia. O que o Santo Padre nos pede é que tenhamos um olhar eclesial mais apurado, para percebermos melhor quais as tentações que nos atacam como membros da Igreja, ou até mesmo como Igreja. Algumas questões deveríamos sempre de novo nos propor: Como eu vejo e trato as outras pessoas? Como eu vejo a Igreja de Cristo?
O Papa Francisco ressalta, em EG 77, o fato de que os agentes de pastoral, bispos, padres e leigos, todos são influenciados pela cultura vigente, ou seja, nós não somos seres angelicais, mas sim conseqüência do mundo em que vivemos. Portanto, os valores assumidos pela nossa sociedade tornam-se de certo modo também nossos e é aí que se escondem talvez as nossas grandes tentações que enfrentamos. Isso exige que entremos sempre de novo em um processo de conversão. Por isso, precisamos olhar para a Igreja de um modo novo, mais pastoral. “A Igreja é mãe, não é museu”, falou outro dia o Santo Padre. Sem esse olhar novo e convertido, nós iremos sempre compreender a Igreja de um modo “mundano”, ou seja, de um modo como o mundo, como a sociedade compreende e se perde totalmente a dimensão profética da Igreja de Cristo. Porém, para que haja esta mudança de compreensão, precisamos também mudar a compreensão que temos do outro, que deixa de ser visto como um joguete, que pode ser usado e deixado de lado quando não se quer mais, para ser compreendido como um irmão, uma irmã na fé, alguém que nos ajuda na caminhada.
O Papa trata, com seriedade, o tema do “mundanismo espiritual”, que pode ser a grande praga que afeta muitos setores da nossa Igreja, assim como as nossas relações intra-eclesiais. Assim diz o Papa na EG 97: “Quem caiu neste mundanismo olha de cima e de longe, rejeita a profecia dos irmãos, desqualifica quem o questiona, faz ressaltar constantemente os erros alheios e vive obcecado pela aparência. Circunscreveu os pontos de referência do coração ao horizonte fechado da sua imanência e dos seus interesses e, consequentemente, não aprende com os seus pecados nem está verdadeiramente aberto ao perdão. É uma tremenda corrupção, com aparências de bem.” A Igreja não deve ser usada para jogos de poder. A sua dimensão profética está em anunciar pela vida doada a serviço dos outros que, como discípulos missionários de Jesus Cristo nós somos diferentes, justamente porque servimos e amamos.
Sair do “mundanismo espiritual”: eis o desafio que o Papa Francisco nos propõe.

9 de dezembro de 2014

Conversando com a Evangelii Gaudium III

Viver em relação com os outros

Nós, cristãos, somos, antes de tudo, seres humanos. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus e, pela Graça do Batismo, recriados em Cristo, como novas criaturas. Por isso, as nossas relações humanas dos mais variados tipos, precisam, necessariamente, ser marcadas pelo novo, que é a nossa Redenção por meio do Sacrifício Redentor de Jesus Cristo.
O Santo Padre dedica os parágrafos 87 a 92 para tratar desse tema. Como vivemos em relação com os outros, precisamos marcar essas relações pela presença do Senhor, elas precisam ser “geradas” por Jesus Cristo. O que significa isso, de modo concreto? Em primeiro lugar é necessário ter muito presente que, na Igreja, nós não tratamos as pessoas como números de uma estatística. Aqueles que nos foram confiados não são apenas um rebanho ovino, embora devamos ser pastores. Cada pessoa é um universo à parte, possui sonhos, desejos, medos, tristezas, traumas, alegrias... Possui, enfim, uma vida que é única e irrepetível. Deve, portanto, ser tratado como tal.
O grande desafio que a EG faz a nossas estruturas paroquiais é a de que se tornem cada vez mais humanas, deixando de ter um aspecto quase que empresarial. Uma Igreja não pode ser uma “agência de assuntos religiosos”, onde as pessoas só procuram para adquirir serviços sacramentais. Deve ser, pelo contrário, uma casa onde a comunidade se sinta à vontade, acolhida e seja aonde as pessoas gostem de estar.
Nos nove lugares onde trabalhei nesses quase 24 anos de ministério ordenado,  consegui dar passos nessa direção. Em alguns lugares, como, por exemplo, a Paróquia Sagrada Família (1994/1998), a Paróquia São José Operário (2003/2009), a Paróquia do Bom Fim (2010/2013) e agora, na Paróquia São Luiz Rei, em Mostardas, sempre busquei fazer da Casa Paroquial e da Secretaria da Paróquia lugares onde o povo sempre encontra chimarrão e um bom bate-papo.
Eu acredito que esses são espaços que não podem ser ambientes pesados, mas sim, lugares onde se encontra a acolhida e o amor cristão, que a Igreja deve manifestar. É terrível quando as pessoas pegam medo de ir à sua Igreja para tratar de algum assunto do seu interesse. É terrível quando elas chegam diante do pároco com receio de serem corridas.
Outro aspecto a ser abordado é o da vivência comunitária. Nas décadas passadas, por exemplo, fervilhavam em nossas comunidades os “Grupos de Família” ou “Círculos Bíblicos”. Hoje são raros os grupos existentes. As pessoas têm medo de abrir suas casas para os vizinhos e outros estranhos. A vivência comunitária da fé vai, aos poucos, perdendo o seu sentido. Quando fazemos a experiência de sermos irmãos na fé, conseguimos abrir o coração e a vida para os demais. Mas, para isso, torna-se fundamental que as nossas Igrejas sejam a extensão da nossa casa, da nossa família. Aí, sim, ao natural vamos conseguindo dar passos na direção de uma Igreja, Sacramento de Comunhão.

Por uma Igreja mais humana, mais humanizada, mais humanizadora... Que esta seja, hoje, a nossa prece. 

6 de dezembro de 2014

Conversando com a Evangelii Gaudium II

Ainda uma Igreja em saída
Uma das coisas mais fascinantes na vida da Igreja é a sua dimensão missionária, que seja a expressão concreta de uma alma missionária. É preciso que essa alma missionária seja fruto de uma espiritualidade missionária, a partir da contemplação das diferentes passagens bíblicas, especialmente nos Evangelhos, Atos dos Apóstolos e das epístolas, que tratam dessa temática. 
Vivemos, na Igreja, especialmente a partir do Concílio Vaticano II, um tempo especial de planos e projetos pastorais. Durante doze anos da minha vida presbiteral (entre os anos 1993/1999 e depois entre os anos 2005/2009), atuei na Coordenação de Pastoral de minha Diocese, auxiliando na elaboração de diversos Planos de Pastorais. Cada Plano era a "adaptação diocesana" das Diretrizes gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, levando-se em conta também as nossas realidades locais. Acredito na importância das Diretrizes Gerais e dos Planos de Pastoral para uma melhor ação conjunta do todo de nossas Dioceses. Porém, um Plano que não seja consequência de uma espiritualidade missionária cultivada no todo da Igreja acabará se tornando um rotundo fracasso. Os Planos servem para canalizar toda a energia missionária que surge na Igreja, a partir das suas lideranças.
O Papa Francisco dedica uma boa parte da Evangelii Gaudium para tratar da figura do agente de pastoral, especialmente dos presbíteros. Ele dedica uma parte do primeiro capítulo a tratar das tentações enfrentadas pelos agentes de pastoral, que agem na Igreja, mas são continuamente atingidos pelo "mundo", ou seja, pela influência da cultura dominante, que, sem notarmos, vai nos tornando pessoas egoístas, fechadas ao outro, consumistas e superficiais. Os parágrafos 76 em diante tratam desse tema.
Karl Rahner, grande teólogo alemão do século passado, declarou certa vez que os cristãos do terceiro milênio, ou serão místicos ou não serão cristãos. De fato, ou criamos um espaço generoso em nossa vida para uma vida de oração, que nos conduza a uma espiritualidade verdadeiramente eclesial e missionária, ou nos tornaremos apenas "fazedores de coisas" em nossa ação pastoral. E fazedores de coisas não vão ao encontro dos outros, não saem de suas sacristias, não dão a sua vida pelo Reino.
Que possamos, neste Tempo do Advento, abrir o nosso coração a Deus que vem, para que nossa ação pastoral seja verdadeiramente missionária.
Até à próxima!

5 de dezembro de 2014

Conversando com a Evangelii Gaudium I

Uma Igreja em saída
A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, fruto do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização, procura reafirmar certos paradigmas tratados de modo exaustivo no Documento de Aparecida (que teve o então Cardeal Bergoglio como um dos redatores), mas que parece ainda pouco assumido em boa parte de nossa Igreja.
O primeiro paradigma tratado é exatamente o da "Igreja em saída". Já no parágrafo 20, o Papa realça a necessidade de a Igreja ser verdadeiramente missionária, diante dos novos desafios que os nossos tempos nos propõem. É sempre bom lembrar dos  primeiros evangelizadores do "Novo Mundo", que, deixando tudo, se jogam na direção do desconhecido, em meio a dificuldades e limitações de seu tempo, como, por exemplo, São Francisco Xavier, São José de Anchieta, os nossos Santos Mártires Riograndenses e tantos outros. nem preciso ir tão longe no tempo para perceber esta realidade. Aqui mesmo, na Paróquia onde estou, trabalhou durante 29 anos (1951-1980) um padre austríaco, Pe. Simão Moser.  Na época não havia ligação por asfalto com nenhum outro lugar. Durante todos esses anos, Pe. Simão visitava as comunidades montado à cavalo, depois, com um Jipe, muitas vezes ficando atolado no meio da areia ou do barro, por dias. Quando lemos sobre a vida deles, nós, padres de nossos tempos, deveríamos corar de vergonha por fazermos tão pouco diante de tantas facilidades que a nossa vida atual nos oferece. 
Hoje, vivemos num tempo de grandes facilidades, o que é muito bom. Aqui, a imensa maioria de nossas comunidades eclesiais são acessíveis com asfalto, o celular nos coloca em contato com o mundo, temos fácil acesso a uma internet de razoável qualidade. O perigo que essas facilidades nos oferece é o de justamente nos acomodar, tornando-nos fechados dentro de uma redoma de vidro. Perdemos, com facilidade, a nossa capacidade de ascese e de uma vida com sobriedade. 
Outro aspecto, que deve ser abordado nesse tema proposto, é o da vivência da fé, que encontramos em nosso povo católico e em muitas de nossas lideranças. No nosso contexto cultural e religioso atual, a vivência da fé se dá na forma de um "consumismo espiritual" (EG 89), totalmente desconectado da vida da comunidade e da unidade com as outras pessoas. Um cristianismo sem rosto não pode ser cristianismo. A grande novidade do cristianismo para o mundo pagão dos primeiros séculos foi justamente a sua dimensão comunitária da fé. A fé não era apenas o conjunto de ritos e devoções, mas se expressava na Liturgia e no amor fraterno. Isso nós não podemos permitir que seja tirado de nós. 
Sair de nós mesmos, sair de nossas sacristias e ir ao encontro do outro, especialmente do outro que é expressão de Jesus Abandonado, nas suas cruzes, dores e sofrimentos. Ir ao encontro do outro, como Igreja que é Mãe, de braços e portas abertas, para acolher com amor. 
Como podemos fazer isso no concreto de nossas comunidades eclesiais? O Papa nos dá algumas dicas preciosas:
a) Nossas Igrejas devem estar sempre de portas abertas, para acolher a todos. Precisaremos criar equipes de Pastoral da Acolhida, formadas por pessoas simpáticas, amáveis e com grande capacidade de escuta;
b) Toda a Igreja precisa se "converter" em missionária, saindo de nossa atitude muitas vezes apáticas (Aparecida fala em "estruturas caducas"...), numa espécie "de pastoral de manutenção", que, às vezes, além de não ser missionária, acaba até mesmo afastando aqueles que eram nossos. Falamos tanto a respeito dos católicos que mudaram de igreja ou até mesmo de religião, mas não fazemos um exame de consciência para examinar se as causas dessas defecções não estariam exatamente em nossas estruturas às vezes pesadas e pouco acolhedoras.
Esta é apenas a primeira "conversa" com a Exortação Evagelii Gaudium. Teremos muitas outras... Aguardem!