“As expressões da piedade popular têm muito que nos ensinar e, para quem as sabe ler, são um lugar teológico a que devemos prestar atenção particularmente na hora de pensar a nova evangelização” EG 126
Prá começo de conversa
26 de fevereiro de 2015
Conversando com a Evangelii Gaudium IX
A importância da piedade popular na
Evangelização
A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium dedica
vários parágrafos à questão da piedade popular, dando a ela uma importância que
muitas vezes tem sido esquecida, seja no estudo acadêmico da Teologia, seja nos
planos pastorais. O Papa Francisco conhece muito bem a piedade popular latinoamericana,
por ser argentino e ter vivido intensamente a realidade do nosso continente nos
seus anos de episcopado.
A primeira constatação que devemos fazer: o nosso
povo é extremamente religioso. Basta olharmos para as diferentes formas de
religiosidade popular em nossas Paróquias, Santuários e devoções. Aqui em
Mostardas, existe a casa ano, por ocasião da Festa de Nossa Senhora dos
Navegantes, uma longa caminhada, saindo da Igreja Matriz na direção da Praia
Nova, um balneário situado há treze quilômetros da cidade. É uma caminhada na
qual um número expressivo de pessoas participa, cerca de mil e quinhentas a
cada ano. Muitas pessoas bastante idosas, caminhando com os pés descalços,
carregando imagens de Nossa Senhora, fazendo ou pagando promessas, demonstrando
um grande amor para com a Mãe de Deus. A piedade popular está sempre
relacionada com o sacrifício, com a superação de limites, com a oração feita a Deus
de modo confiante. Às vezes é, pelo nosso povo simples, mais importante um
momento de devoção popular do que os ritos e sacramentos oficiais da Igreja.
Qual a nossa posição frente a isso, como padres? Muitas
vezes, a nossa atitude acaba sendo a de uma preconceituosa desvalorização dessa
piedade popular. Tentamos colocar o nosso povo dentro de nossos parâmetros
teológicos e pastorais e com isso, perdemos oportunidades belíssimas de diálogo
com a nossa gente. É preciso uma mudança de paradigmas para que possamos
compreender o que o nosso povo sente e como reza. Mais ainda: é preciso que
saiamos de nossa empáfia e comecemos a nos ver também como povo. Sim: nós,
padres (e também os bispos e até mesmo o Papa!) somos povo e deveríamos não
apenas respeitar as expressões de piedade popular, mas também fazê-las nossas.
Assim nos diz o Papa: “Quem ama o povo fiel de Deus, não pode ver
estas ações unicamente como uma busca natural da divindade; são a manifestação
duma vida teologal animada pela ação do Espírito Santo, que foi derramado em
nossos corações (cf. Rm 5,5)”[1].
É preciso
reconhecer que o nosso povo, inúmeras vezes, tem mais piedade, devoção e amor
para com Deus do que nós, padres. Que respeito eles têm para com a Casa de Deus!
Que emoção singela sentem quando acendem uma vela diante da imagem da Virgem ou
de algum santo! Que zelo têm para com a Eucaristia!
Concluo com as
palavras do Papa, dando o verdadeiro valor que a piedade popular tem na vida da
Igreja: “As expressões da piedade popular
têm muito que nos ensinar e, para quem as sabe ler, são um lugar teológico a que devemos prestar
atenção particularmente na hora de pensar a nova evangelização”[2].
Lugar teológico: essas manifestações da piedade polular não são bobagens de
gente ignorante, que precisa ser catequizada; são, pelo contrário, coisas
fundamentais na expressão da fé que nosso povo tem e que merece não apenas ser
respeitada, mas cuidada, porque são verdadeira expressão da Igreja.
24 de fevereiro de 2015
Conversando com a Evangelii Gaudium VIII
Um anúncio para pessoas e realidades
concretas
O capítulo
terceiro da EG trata de modo específico do tema “O Anúncio do Evangelho”.
Estamos chegando ao núcleo daquilo que a própria Exortação Apostólica quer
tratar e que é o núcleo de toda a mensagem cristã: a Boa Nova do Amor de Deus manifestada
por meio de Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado para a nossa Salvação.
Não
podemos – e o Papa Francisco tem isso bem presente – esquecer que a mensagem do
Evangelho é destinada a todas as pessoas de boa vontade. Da mesma forma que
ninguém está excluído do Amor de Deus, ninguém, na Igreja, está fora da missão
de evangelizar. Todos aqueles que, pela fé e pelo Batismo, fazem parte do Povo
da Nova Aliança, tornam-se participantes também da missão que esse povo recebeu
de Deus. “Ser Igreja
significa ser povo de Deus, de acordo com o grande projeto de amor do Pai. Isto
implica ser o fermento de Deus no meio da humanidade; quer dizer anunciar e
levar a salvação de Deus a este nosso mundo, que muitas vezes se sente perdido,
necessitado de ter respostas que encorajem, deem esperança e novo vigor para o
caminho. A Igreja deve ser o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam
sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida boa
do Evangelho”[1].
Aos anseios da humanidade e às suas perguntas
existenciais mais básicas, a resposta que a Igreja deve oferecer – que nós, sua
Igreja hoje, devemos oferecer – deve ser sempre o anúncio da Pessoa de Jesus e
sua Palavra viva, seja pela nossa palavra, seja pelo nosso testemunho concreto.
A vida do cristão deveria ser vivida de tal modo que provocasse nos que
convivem com ele a pergunta: “Por que ele(a) é assim? Qual a razão para suas
atitudes tão belas e tão nobres?”
Outro aspecto abordado nesse
capítulo terceiro é a cultura que recebe o Evangelho. A Boa Nova da Salvação
chegou aos povos mais distantes da terra graças à ação de evangelizadores que
souberam compreender a cultura e os costumes dos povos a quem eram enviados.
Basta lembrar de São José de Anchieta, bem como os missionários jesuítas que
evangelizaram diferentes regiões do nosso país nos seus primórdios. Procuraram
aprender os idiomas e costumes locais, para poder, com maior facilidade,
transmitir aos indígenas a fé. A beleza da catolicidade da Igreja consiste em
celebrar a sua fé com os costumes, idiomas e liturgias prórpias de cada região
do nosso planeta. “A noção de cultura é um instrumento precioso
para compreender as diversas expressões da vida cristã que existem no povo de
Deus.”[2]
É importante, porém, lembrar, que a variedade cultural não ameaça a unidade da
Igreja[3],
pois é o mesmo Espírito Santo que une a Igreja, mesmo com diferentes
expressões. O milagre de Pentecostes acontece ainda hoje.
23 de fevereiro de 2015
Conversando com a Evangelii Gaudium VII
Após merecidas férias, continuamos com postagens sobre a EG
O primado da Graça e a ação humana na Igreja e através
dela
Deus
chama a todos os homens para que se tornem seus filhos e filhas. Este chamado
acontece sempre por iniciativa divina, em consonância com a ação humana. A Igreja
atua como instrumento de Deus e como Sacramento Universal de Salvação. Ela
anuncia de modo “jubiloso”, alegre, a mensagem salvadora de Deus por meio de
seu Filho, Jesus Cristo.
O Papa Francisco cita o seu antecessor, Bento XVI,
quando afirma que “é sempre importante saber que a primeira palavra, a iniciativa
verdadeira, a atividade verdadeira vem de Deus e só inserindo-nos nesta
iniciativa divina, só implorando esta iniciativa divina, nos podemos tornar
também – com Ele e nele – evangelizadores.”[1]. Às vezes, estamos tão preocupados com os
nossos planos e projetos pastorais, que nos esquecemos que eles devem nascer
primeiro no Coração de Deus, para depois serem organizados na nossa mente e
ação prática. A Igreja torna-se evangelizadora na mesma medida em que ela se
deixa “evangelizar” pela ação do Espírito Santo, que move e impulsiona toda a
ação eclesial.
Outro aspecto
importante que o Papa aborda na EG 113 é sobre a importância de a Evangelização
nos conduzir a uma ação eclesial, uma vez que, uma vez evangelizados, nós nos
tornamos parte viva do Corpo de Cristo. “Ninguém se salva sozinho, isto é, nem como indivíduo isolado, nem por
suas próprias forças. Deus atrai-nos, no respeito da complexa trama de relações
interpessoais que a vida numa comunidade humana supõe. Este povo, que Deus
escolheu para si e convocou, é a Igreja.”[2]
Como precisaríamos crescer na consciência de que todos somos Igreja e que, por
isso, toda a nossa ação deve ser eclesial e deve repercutir eclesialmente, ou
seja, o nosso modo de ser e de viver nos torna “co-responsáveis” pela perdição
ou pela salvação de muita gente, que olha para nós como exemplo a ser seguido
ou a ser evitado. Assim como muitas pessoas contribuíram para a nossa vida na
fé (e quantos outros foram contra-testemunhas para nós?), nós também
contribuímos para a salvação ou não de tantos outros que vêem em nós como
discípulos missionários de Jesus Cristo.
Da mesmo forma que existe a dimensão social do pecado
e todo o ato pecaminoso atinge a humanidade como um todo, a santidade também
possui sua dimensão coletiva. Chiara Lubich cunhou a expressão “santidade
coletiva”, para dar destaque que os santos não são apenas santos para si
mesmos, mas para toda a humanidade e o seu testemunho faz resplandecer a ação
contínua do Espírito de Deus na humanidade, tornando-se alavanca para que
outros também busquem viver o mesmo ideal. Basta ver a vida dos santos e santas
para percebermos a importância de suas vidas não apenas para a sua época e
cultura, mas para todos os tempos e lugares. Por isso, a santidade não é apenas
um dom pessoal, mas dom da Igreja e para a Igreja, sendo, desta forma, dom para
a humanidade.
4 de janeiro de 2015
Conversando com a Evangelii Gaudium VI
(Após várias semanas de intenso trabalho pastoral de fim de ano, que impossibilitou novas postagens, retornamos...)
O papel da mulher na Igreja
O Papa Francisco dedica alguns parágrafos da EG, nos números 103 e 104, às mulheres e sua ação no âmbito teológico e eclesial. É preciso que se tenha em mente a grande importância das mulheres na vida da igreja, desde os seus primórdios até os dias de hoje. A grande maioria de nossas lideranças e fieis são do sexo feminino, fenômeno esse que não é exclusividade dos católicos ou mesmo dos cristãos. A mulher, com a sensibilidade que lhe é própria, está muito mais propensa à prática da religião do que o homem, que geralmente tende a ser mais duro às questões de fé. Em geral, em nossas comunidades, os homens tomam conta dos trabalhos brutos, como as obras, as festas e os churrascos, enquanto que às mulheres cabem as tarefas mais sensíveis como as orações, o culto, a liturgia, a devoção. Somente após surgimento dos grandes movimentos eclesiais, mitos deles voltados aos casais, é que os homens começaram a ter uma atitude de maior participação nas atividades pastorais e sacramentais na Igreja. Também, em muitos lugares, as mulheres começaram a atuar de forma mais decisiva nos ministérios de coordenação e nas atividades mais concretas da vida de nossas comunidades.
A questão da negativa à admissão ao sacerdócio ministerial às mulheres já foi decidida de forma definitiva pelo Papa João Paulo II. O Papa Francisco não vê nisso uma diminuição da dignidade feminina na vida da Igreja, mas uma possibilidade de valorização da mulher enquanto mulher. O sacerdócio ministerial deve ser visto como um serviço que se presta à Igreja, e não como uma questão de poder, entendido como dominação. Aqui entra uma reflexão que foi feita no post anterior. É preciso, alerta o Papa, que os teólogos e pastoralistas ajudem a refletir e definir com coragem qual é o real papel das mulheres na vida da Igreja.
Aqui eu me atrevo a tentar refletir sobre isso. As mulheres têm na vida da Igreja um papel semelhante aos dos homens, excetuando o do sacerdócio ministerial. O seu papel vai na linha da maternidade, uma vez que as mães possuem, por vocação própria, o "instinto" da geração e da acolhida. A Igreja se torna sempre mais acolhedora na medida em que as mulheres tomam a linha de frente na ação pastoral e evangelizadora. A sensibilidade própria para "ver" os pobres, os sofredores, aqueles que buscam na Igreja o "colo" necessária. Isso, nós, homens, temos mais dificuldade para fazer. Sem a força e presença da mulher ao nosso lado, a Igreja predominantemente masculina, vai se tornando uma "empresa de atividades religiosas". Por isso, numa Paróquia, o ideal é que, ao lado do pároco, tenha sempre uma secretária com grande instinto de afeto e de acolhida. Igualmente, nas pastorais de visitação e de atendimento aos mais pobres, as mulheres possuem uma visão materna, que ama, acolhe e serve os que necessitam.
Que as nossas mulheres possam ter uma consciência sempre maior da sua importância na vida da Igreja e possam corresponder, como Maria, à sua vocação.
13 de dezembro de 2014
Conversando com a Evangelii Gaudium V
A superação de uma mentalidade mundana dentro da própria
Igreja
O Papa reconhece que um dos
grandes problemas da Igreja está numa mentalidade “mundana” de poder. De fato,
talvez seja o maior problema existente e que, muitas vezes, nos coloca em
contradição com o próprio Evangelho. Muitos ambientes eclesiais estão tão
envenenados pelo ódio, pela ganância e pela luta de poder, que se tornam a
antítese de tudo aquilo que Jesus ensinou aos seus discípulos, especialmente
quando lava os pés deles, na Última Ceia.
Assim escreve o Papa em EG 98:
“Dentro
do povo de Deus e nas diferentes comunidades, quantas guerras! No bairro, no
local de trabalho, quantas guerras por invejas e ciúmes, mesmo entre cristãos!
O mundanismo espiritual leva alguns cristãos a estar em guerra com outros
cristãos que se interpõem na sua busca pelo poder, prestígio, prazer ou
segurança econômica.” Uma visão
puramente institucional de Igreja, vista de um modo somente mundano, permite
que aconteçam essas guerras fratricidas, que acabam se tornando um escândalo
para os que vêem de fora como se portam os cristãos, especialmente os
eclesiásticos.
Certa feita, um colega fez uma interessante reflexão sobre isso. Talvez
a tentação e o pecado que é mais grave na vida da Igreja seja o do poder, mais
grave até mesmo que as tentações e pecados na área da sexualidade, porque enquanto
estes são bem definidos (não pode e ponto final), aqueles (os do poder) são muito
menos perceptíveis e podem ser escondidos sob aparências até mesmo aceitáveis e
boas. Porém, o veneno é até mesmo pior, pois nessas tentações, surgem pecados
sérios, como a inveja, o ciúme, a arrogância, a maledicência, o ódio... Isso
envenena totalmente a alma, arruína as relações entre as pessoas, destrói a
Igreja de Cristo.
Por isso, nada como o último lugar! Jesus, em seu aniquilamento, ao se
fazer homem e, na Cruz, assumir o último lugar, nos mostra o caminho que nós,
discípulos missionários, temos que percorrer na fidelidade à nossa vocação. E a
nossa vocação é esta: estarmos na Cruz com o Senhor, dando a nossa vida pelo
Reino.
O Papa Francisco tocou numa das chagas mais dolorosas da Igreja. O próprio
contexto de sua eleição (a renúncia de Bento XVI, no meio de uma triste
tempestade na Igreja) mostra o quanto precisamos crescer nesse sentido. E a
briga de poder não se dá somente na Cúria Romana: acontece de igual forma
também em nossas Dioceses, Paróquias, Movimentos, até mesmo em nossas famílias.
A vida cristã será profética
no mundo de hoje na medida em que, em nossos ambientes, formos testemunhas do
serviço gratuito e desinteressado aos outros, serviço este feito com
generosidade e amor.
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