A importância da piedade popular na
Evangelização
A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium dedica
vários parágrafos à questão da piedade popular, dando a ela uma importância que
muitas vezes tem sido esquecida, seja no estudo acadêmico da Teologia, seja nos
planos pastorais. O Papa Francisco conhece muito bem a piedade popular latinoamericana,
por ser argentino e ter vivido intensamente a realidade do nosso continente nos
seus anos de episcopado.
A primeira constatação que devemos fazer: o nosso
povo é extremamente religioso. Basta olharmos para as diferentes formas de
religiosidade popular em nossas Paróquias, Santuários e devoções. Aqui em
Mostardas, existe a casa ano, por ocasião da Festa de Nossa Senhora dos
Navegantes, uma longa caminhada, saindo da Igreja Matriz na direção da Praia
Nova, um balneário situado há treze quilômetros da cidade. É uma caminhada na
qual um número expressivo de pessoas participa, cerca de mil e quinhentas a
cada ano. Muitas pessoas bastante idosas, caminhando com os pés descalços,
carregando imagens de Nossa Senhora, fazendo ou pagando promessas, demonstrando
um grande amor para com a Mãe de Deus. A piedade popular está sempre
relacionada com o sacrifício, com a superação de limites, com a oração feita a Deus
de modo confiante. Às vezes é, pelo nosso povo simples, mais importante um
momento de devoção popular do que os ritos e sacramentos oficiais da Igreja.
Qual a nossa posição frente a isso, como padres? Muitas
vezes, a nossa atitude acaba sendo a de uma preconceituosa desvalorização dessa
piedade popular. Tentamos colocar o nosso povo dentro de nossos parâmetros
teológicos e pastorais e com isso, perdemos oportunidades belíssimas de diálogo
com a nossa gente. É preciso uma mudança de paradigmas para que possamos
compreender o que o nosso povo sente e como reza. Mais ainda: é preciso que
saiamos de nossa empáfia e comecemos a nos ver também como povo. Sim: nós,
padres (e também os bispos e até mesmo o Papa!) somos povo e deveríamos não
apenas respeitar as expressões de piedade popular, mas também fazê-las nossas.
Assim nos diz o Papa: “Quem ama o povo fiel de Deus, não pode ver
estas ações unicamente como uma busca natural da divindade; são a manifestação
duma vida teologal animada pela ação do Espírito Santo, que foi derramado em
nossos corações (cf. Rm 5,5)”[1].
É preciso
reconhecer que o nosso povo, inúmeras vezes, tem mais piedade, devoção e amor
para com Deus do que nós, padres. Que respeito eles têm para com a Casa de Deus!
Que emoção singela sentem quando acendem uma vela diante da imagem da Virgem ou
de algum santo! Que zelo têm para com a Eucaristia!
Concluo com as
palavras do Papa, dando o verdadeiro valor que a piedade popular tem na vida da
Igreja: “As expressões da piedade popular
têm muito que nos ensinar e, para quem as sabe ler, são um lugar teológico a que devemos prestar
atenção particularmente na hora de pensar a nova evangelização”[2].
Lugar teológico: essas manifestações da piedade polular não são bobagens de
gente ignorante, que precisa ser catequizada; são, pelo contrário, coisas
fundamentais na expressão da fé que nosso povo tem e que merece não apenas ser
respeitada, mas cuidada, porque são verdadeira expressão da Igreja.
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