A superação de uma mentalidade mundana dentro da própria
Igreja
O Papa reconhece que um dos
grandes problemas da Igreja está numa mentalidade “mundana” de poder. De fato,
talvez seja o maior problema existente e que, muitas vezes, nos coloca em
contradição com o próprio Evangelho. Muitos ambientes eclesiais estão tão
envenenados pelo ódio, pela ganância e pela luta de poder, que se tornam a
antítese de tudo aquilo que Jesus ensinou aos seus discípulos, especialmente
quando lava os pés deles, na Última Ceia.
Assim escreve o Papa em EG 98:
“Dentro
do povo de Deus e nas diferentes comunidades, quantas guerras! No bairro, no
local de trabalho, quantas guerras por invejas e ciúmes, mesmo entre cristãos!
O mundanismo espiritual leva alguns cristãos a estar em guerra com outros
cristãos que se interpõem na sua busca pelo poder, prestígio, prazer ou
segurança econômica.” Uma visão
puramente institucional de Igreja, vista de um modo somente mundano, permite
que aconteçam essas guerras fratricidas, que acabam se tornando um escândalo
para os que vêem de fora como se portam os cristãos, especialmente os
eclesiásticos.
Certa feita, um colega fez uma interessante reflexão sobre isso. Talvez
a tentação e o pecado que é mais grave na vida da Igreja seja o do poder, mais
grave até mesmo que as tentações e pecados na área da sexualidade, porque enquanto
estes são bem definidos (não pode e ponto final), aqueles (os do poder) são muito
menos perceptíveis e podem ser escondidos sob aparências até mesmo aceitáveis e
boas. Porém, o veneno é até mesmo pior, pois nessas tentações, surgem pecados
sérios, como a inveja, o ciúme, a arrogância, a maledicência, o ódio... Isso
envenena totalmente a alma, arruína as relações entre as pessoas, destrói a
Igreja de Cristo.
Por isso, nada como o último lugar! Jesus, em seu aniquilamento, ao se
fazer homem e, na Cruz, assumir o último lugar, nos mostra o caminho que nós,
discípulos missionários, temos que percorrer na fidelidade à nossa vocação. E a
nossa vocação é esta: estarmos na Cruz com o Senhor, dando a nossa vida pelo
Reino.
O Papa Francisco tocou numa das chagas mais dolorosas da Igreja. O próprio
contexto de sua eleição (a renúncia de Bento XVI, no meio de uma triste
tempestade na Igreja) mostra o quanto precisamos crescer nesse sentido. E a
briga de poder não se dá somente na Cúria Romana: acontece de igual forma
também em nossas Dioceses, Paróquias, Movimentos, até mesmo em nossas famílias.
A vida cristã será profética
no mundo de hoje na medida em que, em nossos ambientes, formos testemunhas do
serviço gratuito e desinteressado aos outros, serviço este feito com
generosidade e amor.

